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[FS 1] Maquiavel & Asami - O concílio de olhos distintos I

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Um

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Staff
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Nome: O Concílio de Olhos Distintos - Parte Um[/i]
Local: Kiri - Passado, cerca de seis anos atrás
Detalhes: ilustrar como se deu o florescer da amizade entre Maquiavel (PP) e Asami (PS)

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Ilusionista

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Asami POV
A cama que estou é macia, posso sentir seus lençóis claros agasalhando minha pele quase albina. Aquilo me arrancava um tímido riso, o som de uma alegria nua e crua que não precisa se preocupar em ficar bem para as câmeras. De fato, essa era uma jóia rara que escapulia de meus dedos, um luxo que nem mesmo uma alta sacerdotisa pode desfrutar.
Fazia frio aqui, era a primeira vez que o sentia caminhando por minha pele, me lembrando que sou eu a intrusa nessas terras. A invasora. Meu pé toca sua terra, um chão gelado e sem alma me esperava. Podia-se ver que seu exterior, sua maquiagem, era linda. Cheio de desenhos e formas que só conhecem um propósito: maravilhar olhos alheios, distrai-me da verdade.  
Sinto um peso em minha barriga, uma leve dormência na região que me fazia o favor de lembrar que estou viva. Era meu acompanhante até o sono chegar até mim, um convite para outro mundo. Era um pequeno livro, um dos poucos presentes sinceros que ganhei nessa minha existência. Era de meu pai e, se algum tolo aventura-se para o desbravar, um simples bilhete lhe aguardava. A tinta, escura como o céu de onde vim, estava em seus últimos dias de vida.

Este livro é para minha única herdeira de sangue, a minha única filha e, no futuro, a primeira kunoichi  sacerdotisa de seu clã. Aproveite esse exemplar que, um dia, passou por mim de A Lenda de um Ninja Destemido... Com amor, seu pai.

Uma lágrima, uma teimosa lágrima, desce em meu rosto: toca, de maneira efêmera, minha pele antes de desaparecer ante meus olhos infantes. A tinta, a mesma que mantinha essa mensagem na velha e amarelada contra capa, parece compartilhar o meu mesmo destino, a mão inevitável do esquecimento. Dou mais alguns anos, apenas alguns poucos anos, para essas palavras se tornarem um mero borrão nessa escrita de cabeceira.
Um sorriso discreto, uma raridade, eu o esboçava em meus lábios enquanto, de maneira carinhosa, colocava meu presente de lado. Ele podia descansar na minha cama agora, ao meio do luxo, junto de meus outros sonhos mortos. Ambições fugazes de uma criança com uma infância perfeita: uma burguesa que, onde ia, seu trono de ouro a seguiria.
- Asami, o ensaio acontece daqui a quinze minutos… Tome o seu café antes que esfrie.
Essa era minha mãe, uma mulher de negócios - como ela mesma anuncia aos ventos a cada chance velada que tem. Ainda que a porta de meu quadro fosse grossa, de uma qualidade que meu olhar é incapaz de contrariar e, ainda sim, sua voz é como um estouro nos portões de meus ouvidos virgens. Sei que, em seu seio, a um consolo que poucas vezes o mundo existirá. Entretanto, ainda tenho doze anos e, no fundo, só sei gritar.
- Porra, mãe. Eu não pedi para ser um manequim feito de 24 horas por dia!  
Eram raras as ocasiões que solto minha língua dessa forma, de uma maneira tão chula. Nesta altura, eu já estava alguns poucos metros da porta que nos separava: da porta que me separa do fardo inevitável. A responsabilidade. Nos segundos, acanhados segundos, que nasceram o silêncio fazia seu reino. Parecia que eu tive a palavra derradeira, o melhor prêmio do momento. O sangue fervia e, na mesma dança, meus punhos se trancaram  em si.
A garganta queimava, a saliva era a moeda a ser paga. Meus cabelos ruivos se encontram em um caos só, longe da lei e ordem que estão acostumados a seguir. Não seguem por medo e, tampouco, por sua legítima vontade. Não, o que move é algo mais íntimo, algo mais selvagem: algo que tem seu princípio e desfecho de seu próprio umbigo. Estou falando do desejo, da gasolina para esse velho e acabado carro que chamamos de vida.
Houve passos, os únicos com audácia o suficiente para quebrar o pacto de mudez. Eles eram discretos, quase como uma sombra qualquer porém, nada os podia negar de existir. Aquilo me fez engolir a seco meu orgulho mesquinho, me fez suar frio como só ela sabia fazer. Os instantes que ela demorava para subir, o espaço entre um degrau e o outro, era ali que o demônio fazia sua moradia: era ali que minha súbita ansiedade há de descansar.
Começo a pensar em palavras, em desculpas esfarrapadas, tudo valia se fosse para, da fivela de seu cinto, escapar. Entretanto, era eu o meu mais perverso traidor. Entre os segundos que me restavam, aquelas pequenas brechas de tempo que fazia-se de barganha, de nada me serviam em seu desfecho pois, no fechar das cortinas, boas ideias não moravam mais em minha cachola.
O silêncio fez seu retorno mas, desta vez, era apenas uma visita breve. Uma visita que ascendia a calmaria antes da tormenta. Os passos cessaram mas, a essa altura, dúvida alguma me restava: estávamos, literalmente, a um palmo de distância. A porta de madeira, desenhada em um mar de esmero, era a única coisa que separava nossos olhares. Podiam até ser divergentes em seu tom, mas eram idênticos em sua alma.
- Não levante sua voz para mim, eu lhe dei vida… Acima de tudo, eu lhe dei um motivo para se levantar todo dia.
Minha mãe clamava, eu podia ouvir seu sentimento suprimido, preso em um gaiola e lutando para sair. Podia até a imaginar atrás desta porta com seus braços cruzados e uma cara austera me esperando ansiosamente. Seus olhos, tais como os meus, não dariam o braço a torcer. Teimosia, em nossa família, deve ser um gene dominante. Um pequeno sorriso se faz na ponta de meus lábios, como se gostasse daquilo: como se gostasse da quebra de braço.
- Corta essa, você não me deu nada… Você me ordenou, isso é completamente diferente.
Meus ânimos estavam mais pacíficos, agora era o momento de jogar uma partida de xadrez humano. Ou assim, com toda essa postura maquiavélica, eu queria me fantasiar. A mudez durou menos dessa vez, ela era uma passageira que nem, ao menos, teve tempo de sentar no trem. Mesmo sem ver seu rosto, mesmo com apenas seus leves suspiros a disposição, pude sentir sua testa franzir e, com ela, a gaiola se abrir.
- Talvez, você fosse muito pequena para entender o motivo de fugimos… Quem sabe, eu tenha mesmo falhado em sua criação mas…
- Pare, não sou mais uma criança para acreditar em seus contos de fadas. - a interrompi, o tom de minhas palavras me era estranho, demasiadamente cheio de crueza. - Pare de mentir para mim, ou melhor, pare de mentir para si própria; é patético.
- Você sabe que o demônio é real, acredita que todo mundo: todo o seu povo estaria mentindo? - Pude apreciar o toque de cinismo em suas últimas palavras, uma arrogância ausente de qualquer resquício de vergonha - Seu pai é a prova viva do que digo, o cadáver dele não é o suficiente para encerrar sua rebeldia digna da adolescência.
- Não ouse usar ele como seu escudo… - nesse breve momento, aponto o meu dedo para a frente: como se fosse para seu rosto escondido, sua expressão incrédula. -  o Demônio está morto, destruído. São vocês que continuam presas em contos de outro mundo, na esperança egoísta de terem algum propósito uma vez mais… Seja franca consigo mesma, você queria os Olhos Violeta… Queria ser como eu!
A garganta arde com o grito que nasceu de meus, outrora serenos, lábios. Minha testa franzida se encontravam, faziam par com meus punhos cerrados. Meu coração estava agitado, com pressa para ter algum significado. O sangue estava fervendo, marcando sua presença em minhas veias saltadas. Havia uma sopa de emoções cozinhando no meu estômago, brigando para ver que sairá primeiro. Ver que, nesse inferno, vai governar.
- Só não esqueça que, no fim do dia, sou eu que te dou um teto para morar, quatro paredes para você berrar o quanto desejar. - Minha mãe me respondia, quase podia a sentir cruzando os braços, determinada a ter o ponto final. - Não acredito que seu pai desistiu dos sonhos por quem está perante a mim… Essa criança mimada não mereceu seu sacrifício supremo.
- Ele não morreu por mim! Ele não se foi por minha causa… Não se iluda, foram Homens que fizeram isso conosco e não, deuses.
A doce Asami, aquela que vive diante das câmeras, mandou um adeus desde que esse instante se fez. Inflamada, tal como seus fios de cabelo, em chamas estava seu coração. Ainda que aquilo me fizesse dor, fizesse minha mão suplicar por um carinho que nunca vêm, meus punhos se jogavam contra a parede mais próxima. Eles se contraem em uma imediata reação, tremendo por um sofrimento que passeia livres pelos meus braços. O grito, a súplica velada, é o anseio de seus ouvidos que nunca será saciado.
- Se quer colocar a culpa em alguém, se quer culpar algo… Culpe esses malditos olhos pois, desde que me entende como gente nesse mundo, eles só veem desgraça.
Meus joelhos caem, um baque momentâneo ganha vida. Minhas mãos tocam o chão, passeiam por seus muitos caminhos. A maioria, senão todos, viveram mais do que eu e, ainda sim, duvido que tenha visto mais mortes do que eu. Uma lágrima, uma lágrima coberta de estigma, corre pelo meu rosto pálido: para um rosto tão acostumado com sorrisos falsos que a verdade - o sentir - tornar-se seu maior receio.
- Um dia verá o que vejo… Verá o dom que reside em sua alma pura, sua missão nesse mundo, - Dizia minha mãe, mais suave depois de alguns bons instantes calada. - Filha, a algo que posso fazer para aliviar teus ombros?
- Isso é o pior mãe... A morte é a única corrida que sempre vamos perder, então, por qual motivo se dar o trabalho de correr?      
...
Maquiavel POV
Estava no alto, colocando meus pés nus sob a cautela de pequenas pedras que faziam essa montanha ser o que ela é. Lembro que dor era o que eu deveria sentir, era o que, na boca de muitos, iria se encontrar. Porém, como um bom soldado de chumbo, nem um pio sequer era solto. Mesmo perante dedos cortados, mergulhados em sangue vivo, o silêncio tornou-se minha única e absoluta lei.  
O sol, tal como eu, se mantinha como um bom mudo: sufocado por uma névoa que, aos poucos, conquistava seu espaço na paisagem. Não posso mentir, eu também era vítima de seu progresso audaz, de seu abraço comprometido a acabar com tudo que reluzia. Ver um palmo além de meus olhos se revelava um infortúnio breve e, todavia, irritante. O norte e o sul trocavam passos nessa dança, desapareciam diante meus sentidos.
Não me permitia vacilar, o alimentar com meus receios e medos. O instinto dizia para eu correr, para nunca olhar para trás e simplesmente viver. Minha mão, entretanto, decidia me trair sem crueza. Os dedos, ainda livres, suavam e tremiam perante a iminência da certeza que repousa em tudo que anda e respira. A certeza da morte.
- Não queria fazer isso criança, não queria mesmo fazer isso…
O barulho de uma espada sendo sacada quebrava a lei do silêncio que estava a vigor. Suas palavras podem levar a paz porém, até agora, elas só me trouxeram a guerra e desgraça. A vez que se segue não é muito diferente das outras, suas palavras mais me pareciam um coro de “auto justificativa” a conservação de um código, há muito, comido pelos vermes do que um consolo propriamente dito para mim. pergunte-me e direi que isso é uma mera futilidade.
A lâmina se encontrava em minha frente, apenas alguns centímetros de minha carne fresca. Ela poderia não admitir mas, tal como seu mestre, iria me fatiar com gosto se assim clamado a fazer for. Não era nada pessoal, nunca nos vimos cara a cara antes, mal sabemos o nome um do outro: todavia, aqui a gente se encontram, dois estranhos trocam passos enquanto a melodia da natureza toca.
-..Pegue sua espada, não matarei um homem desarmado.
Somente sua voz chegava a mim, seu rosto teimava em continuar sendo um mistério. Um mistério que nada me acrescentará, que de nada me importava. Era só mais um para entrar na minha longa lista como assassinato. Se fosse para ser verdadeiro, minhas mãos já estariam submersas em vastas piscinas vermelhas. Ainda sim, aquela profissão não me fazia sorrir, eu não poderia dizer que estava feliz em ser o emissário de tantas almas.
Carente de escolha, seguro firme na bainha de minha Tanto. Por mais que ela se mantivesse acanhada, escondida, a realidade teimava em bater em sua porta. Um suspiro rolou para longe de meus lábios enquanto a lâmina era acordada de seu sono. Ela era cuidada com esmero, por pouco não ecoava no meio dessa escuridão: punha-se diante de mim, diante da linha que separava os vivos e os mortos.
- Se esse é o seu anseio, longe de me é a possibilidade de o contrariar; senhor.  
Palavras secas de uma boca que não conhece o sentido da rebeldia, de ter uma voz própria ecoando de seus atos. Alguns teriam pena de mim, diriam que não estou aproveitando minha chance nesse mundo. Resume a mim ao papel de um escravo mirim, uma marionete com roupas bonitas. Pergunto-me, ainda que mudo, se os outros sabem que também tem cordas, um mestre perante suas cabeças se curvem.
Meus olhos acordam, vermelhos eles se tornam. Como se fosse o ato de noite para o dia, não me encontro mais com uma venda no rosto. Eu posso ver, a luz se fez. Aquilo deu-me confiança, mergulhou-me em uma adrenalina súbita. Sufoco a bainha com minhas mãos pálidas, dedos ardem como uma resposta a violência que aqui morava. Não havia mais o que dizer, desculpas ao vento já se foram.
Os pés saltaram de seu canto e o sangue ferveu. Espadas contrárias se chocaram em um ato fugaz. Foi apenas um movimento, uma brisa em nossos cabelos e, ainda sim, isso pesava mais do que eu pensará. Eu podia visualizar com clareza: estava diante da face do inimigo, daquele que anseia me tirar desse mundo. Porém, distinto da boca que nos fala, ele pera emoção era levado. A raiva tirou o melhor dele, reduziu-o a um mero animal.  
O momento passou, cada um de nós estava de costas para o outro. Uns bons metros, e apenas isso, era o que nos separava da barbárie. O suor caia de meus cabelos negros e com ele, meu óculos fazia as honras. Ele estava no chão e, de maneira quase cirúrgica, fatiado em um par de pedaços. Ao fim disso tudo, era só mais um perdido entre a densa névoa e as pequenezas pedras que davam forma ao tabuleiro.
- Perdão criança… Mas, não posso deixar usar seu olhar maldito. Não aqui, não mais.
Um truque suja mas bem jogado. Meu pai ficaria orgulhoso se eu fosse o dono deste ato. Agarrado a minha lâmina e, mesmo assim, minhas mãos sentem a adrenalina as deixar. A confiança, como tudo que me é reservado nesse plano, é passeira. Ouço meu coração bater, dizer aquilo que meus lábios eram tolos demais para admitir. Medo, era ele que corria por minhas veias agora, um sentimento traiçoeiro e vulgar.
A vida, por vezes, emita um filme. Seu comportamento divide-se em cenas submersas em um roteiro perverso, uma arte da qual não faço parte. Apenas assisto como se fosse  turista perdido em sua existência mais íntima. Parado, suando que nem um porco, eu estava. Sentia em meus ossos, batia em minha carne, a iminência da fatalidade. Esconder isso podia ser meu desejo, meu anseio mais gritante e, ainda sim, eu tremia diante as câmeras.
Ouço gotas caírem ao solo, mas a culpa não repousa nos ombros da natureza. Era um tipo de chuva diferente, uma que só poderia ser feita pelo Homem. Uma chuva de sangue. Meu coração bate mais forte à medida que a realidade chega a minha porta, no ritmo em que meus dedos tímidos se aproximam de sua gênese. Dedos tocam na ferida, sentem, diante da tormenta, minha carne nua ao vento. Eles retornam para casa manchados de vermelho.
Era uma pequena ferida, acanhada perante o mundo que não para de acontecer, no lado esquerdo da face. Mera demais para deixar lembranças, uma cicatriz não viria dali. Porém, eu ainda era só uma criança. Sentia seu arder e meu coração, agindo como um escravo dos sentidos, iniciava a corrida. O desespero possui meus lábios e, mesmo assim, palavras não nascem. Elas falecem no abismo, no meio da encruzilhada.  
- Risco da Dança da Lâmina. - exclamava de forma respeitosa antes de guardar sua espada envolta de esmero. - Faça um favor a si mesmo e guarde o choro. Tombará com honra, um luxo que poucos possuem.
Um pesar estranho morava em suas derradeiras palavras, um sentimento que traia sua calma perante a tempestade. Escuto sua katana ir repousar com a sensação de dia feito. Aposto que ainda está suja, maculado com o sangue desse que nos fala. Manchas efêmeras e, por todavia, teimosas. Pode tentar lavar, colocar no meio de uma torneira nervosa, o vermelho não vai deixá-lo se livrar. Sem nada falar, mesmo no silêncio digno de um ritual, sabia que essa lâmina desejava esta alma arrancar.
O coração dele é sereno, não sou a primeira vida que ele ceifa e, provavelmente, não serei a última. Batimento neutro, como se estivesse esperando na fila do banco. Um pouco de tédio repousava em sua face, um tédio cozido com lágrimas de culpa. O seu caminhar era movido por uma mistura de arrogância e orgulho. O tempo havia trazido-o muitas vitórias e, com ombros muídos, a soberba tinha cobrado seu preço. O velho samurai tinha baixado sua guarda.  
Longe de mim o culpar, a lógica descansava em seus punhos cerrados. Pergunte a qualquer homem, a todo aquele que tem uma cicatriz para ostentar, uma criança de dez anos sem seus amados óculos não é uma ameaça a se considerar. Pelo contrário, é uma tosca piada presa no campo de batalha: um peso morto, tremendo como todo porco segundos antes de pousar no matadouro. É isso que sou, um chiste de mau gosto.
Ainda de olhos vermelhos de nada eu significava, era um animal assustado que segurava uma espada infante, um garoto que não pode ver nem um palmo adiante. Apenas meus ouvidos vinham ao meu socorro, meus sentidos que atravessavam os frágeis limites da carne.  Escuto cada passo dele, do samurai perante a mim, era um pé atrás do outro, quase como se fosse uma música: uma melodia que, em seu silêncio, cantava uma vitória luxuosa… saltava versos que pisavam em meus ossos.
O jovem cego, esse era o personagem que me foi dado. Nada além de passos serenos marcavam esse tabuleiro. Palavras não tinham coragem, tão pouco audácia, para fazer suas raízes nessa montanha: a derradeira paisagem para um de nós dois. O vento era frio, bagunçava meus cabelos obcecados por uma fugaz ordem. O sentir balançar, tocar minha pele como, há muito tempo, ninguém ousava. Pareciam dedos frios, passageiros mas nunca uma surpresa: a morte, esse ser de mil faces, se aproximava de minha alma.
- Pela Honra de meu pai não me ajoelharei a você e, pelo orgulho do sangue que corre em minhas veias, escreverei seu desfecho em pedra. - Sussurrava apenas para meus ouvidos castigados enquanto minha lâmina era balançada com avidez. - Corte da Espada de Chakra!  
Gritei, queimei minha garganta de dentro para fora. A adrenalina me domava mais uma vez, afastava a morte de minha calçada. As palavras foram contra o vento outrora manso, vendo o se tornar violento ao meu comando um breve sorriso assume esses lábios obedientes e, de certa forma, assustados com seu próprio feito. Agora era diferente, não era uma figura morta de um livro qualquer. Estava acontecendo e, enquanto eu tremia, meu destino era traçado.
A força da natureza ia para frente, estava indo em choque com aquele que, instantes antes, mergulhava em calma e confiança. Esse mergulho, entretanto, foi interrompido pelas ondas vindas de minhas rajadas. Percebo teu passo vacilar, o caminhar, outrora certo, se tornava uma criatura hesitante. Aquilo não o agradava, a perspectiva de sacar sua lâmina seca uma vez mais. Surpreso, apenas recuar era possível em seu tabuleiro. Ele saltou, porém, seu contragosto ficou.
Teve segundos de silêncio dessa vez, uma nova calmaria antes da tempestade se fez. Seus pés eram muitos leves, ardilosos demais, para meus ouvidos no agora. Apenas ouvia meu próprio coração me traindo, exilando, em suas batidas aflitas, um medo que deveria ser extinto. Ele me confundia, trazia à mente um pensar proibido: o receio da morte, o frio que percorre meus ossos. O terror, a impotência, perante aquilo que nem os deuses podem escapar.
Tudo isso teve um fim precoce quando o barulho, novamente, invadia meus ouvidos. O baque de metal diante das pedras e um riso, um passageiro riso, que trazia uma lágrima de esperança para esse pesadelo vivo. O samurai encontrou o chão e, com ele, uma mistura de satisfação e incredulidade regaria suas futuras palavras. Em suas mãos, agora fechadas de maneira agressiva, repousava a metade de uma katana: a metade de uma alma.  
- Fez o que muitos apenas sonham: quebrou a lâmina que esteve comigo desde que me entendo como gente... - Os restos de sua arma eram apontados na direção que eu estava, quase como um troféu. - Merece morrer pela espada com honra, criança.
Aquela podia ser a minha chance, um ato que divide os vivos dos mortos tal como a espada que meus dedos, em meio ao soar frio, abraçam faz. Só me restava como bússola aquilo que foge do controle de todos os fadados ao sono eterno: o respirar que, mesmo contra sua vontade, há de permanecer. Aquilo que confirmava que sua carne ainda não era fria, em uma doce ironia, é o que pode levá-lo para a lápide.
Seus passos eram leves, treinados em meio a crueldade e esmero que minha pele já estava acostumada. Posso lhe imaginar, por um fugaz instante, como um semelhante. Uma alma com que partilho as mesmas cicatrizes, os mesmos desejos mudos. Tudo em nome de um código, tudo em nome daquele que jamais suja as mãos. Nossa principal diferença? Um de nós cortou as amarras, não é mais uma mera ferramenta saciada com poucos mimos.
Entretanto, tudo isso não importa. Tudo isso é passageiro. Eu apenas continuo a andar enquanto minha espada tem seu destino traçado antes que minha própria mente decida. O coração daquele que, nem ao menos, conheço. A medida que nossos passos vão diante ao inevitável, ao concílio de olhos estranhos, podia ouvir o macabro ter sua vez. Suas batidas se permitiram vacilar e, por um segundo perdido no tempo, acelerar.
Houve o choque mas o destino não se cumpriu. Minha Tanto encontrou sua igual enquanto, de maneira inédita, a ilusão de uma vitória se desfazia diante de meus olhos. Talvez fosse a primeira vez que vi seu rosto de fato, a expressão de um homem que, há muito tempo, pois sua alma no mercado. Quem sabe fosse por uma infante rebeldia ou um peito quebrado, para mim pouco importava. Ele tinha cicatrizes percorrendo sua carne, algumas bem mais velhas do que esse que nos fala. Eu poderia contar-las mas, acho que não tenho dedos o bastante.
Havia um sorriso, um breve sorriso livre de pudor em seus lábios. Era um de canto mas dava para ver. Sentia toda a força de seu corpo, seus oitenta quilos contra mim, fazendo meus pés vacilarem e serem arrastados para trás. Suspiros pesados nasciam de minha boca seca, lábios que, mesmo mudos, imploravam por uma chuva - uma pausa que jamais veriam. Os ossos estavam cansados, suplicando para que tudo isso acabasse de uma vez: suplicando para que a morte atendesse seu clamor.
Minha Tanto, não diferente de minha carne nesse momento, tremia - aos poucos ruia - diante do que estava a sua frente. A katana, ainda que quebrada, havia sido alimentado por um manto azulado: uma enorme foice feita de chakra ocupava seu assento agora. Tal como meu medo ela crescia, mais durável e longa que sua forma mãe. Era uma arma ritualística, uma lâmina curvada que, em todo seu silêncio, não escondia sua fome por mim.  
- Lá, em minha terra fria e gelada, eu tenho um título… Um mimo pelo serviços que fiz ao meu amado País do Ferro: Ceifador de Samurais! - exclama enquanto eu, em um misto de medo e sabedoria, saltava rapidamente para longe. - Flash!
Quando me encontro ciente do que me cercou já era tarde demais. Meu corpo estava rendido ao chão, ao toque das pequenas pedras que moravam nessa montanha. Apenas me restava suspirar de maneira ofegante, desesperado por garantir mais um minuto nessa terra maldita. Os pulmões lutavam entre si para se manter acordados, estavam imersos em suas próprias feridas internas e afogados em seu sangue virgem demais para se queixar.
A visão estava embaçada, havia me traído novamente e, devo admitir, aquilo estava ficando cada vez mais rotineiro. Levantei as mãos de forma que o instinto fala mais alto que minha doce, e iludida, razão. Seus dedos estavam nus, mergulhados em um vermelho meu. A carne estava à mostra, exposta como se tivesse ficado em um museu. Cortes e mais cortes densos passeavam por suas palmas calejadas: por uma pele que não conseguia parar de tremer e, ao medo, no fim se render.
Aquilo me enchia de vergonha, de um sentimento que sufoca o meu peito. Eu sentia os corvos, os emissários da morte, me circulando aos poucos. Eu devia gritar, eu sei que era o que o mundo me reserva. Entretanto, nenhuma moral me deteve: nenhuma honra me fez ir contra a maré. Não, eu gostaria, mas não. Nada disso foi o culpado, a resposta bebia de uma irritante simplicidade: meus lábios não tinham força para tal, estavam selados e, quem sabe, isso durasse a eternidade.    


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